A decisão do passageiro de abandonar o transporte coletivo passa, antes de tudo, pelo tempo perdido no trânsito e pela falta de conforto no …
A decisão do passageiro de abandonar o transporte coletivo passa, antes de tudo, pelo tempo perdido no trânsito e pela falta de conforto no deslocamento diário. Ao contrário do que se poderia supor, o valor da tarifa não é o principal fator de expulsão dos usuários dos ônibus nas cidades brasileiras: a busca por flexibilidade, menor tempo de viagem e maior comodidade tem falado mais alto na hora de migrar para os modos individuais de transporte.
Por que o passageiro foi embora?
A pesquisa traz o raio-X da migração de modal no país: apenas 32% dos usuários permanecem como demanda cativa do transporte por ônibus, enquanto 29% deixaram de usar totalmente o sistema e 28% diminuíram a frequência das viagens (10% declararam nunca ter utilizado o serviço).
Entre os passageiros que abandonaram ou reduziram o uso do ônibus, os motivos centrais destacam a insatisfação com a qualidade e a eficiência da viagem:Pouco conforto: 29%
Falta de flexibilidade dos serviços: 21%Tempo elevado de viagem: 20%Tarifa elevada: 12%
A constatação da NTU indica que a experiência do usuário — traduzida em pontualidade, frequência, assentos disponíveis e viagens menos desgastantes — pesa mais na balança do que o preço cobrado na catraca.
Mudança nos padrões de mobilidade
A transição evidencia que o encolhimento do transporte público coletivo (TPC) não decorre apenas de uma redução de deslocamentos da população, mas de uma verdadeira reorganização da mobilidade, marcada pelo crescimento expressivo do uso de veículos individuais motorizados e serviços por aplicativo.
Gargalo nos investimentos e propostas para o setor
O levantamento da NTU expõe, ainda, o desequilíbrio histórico nos aportes financeiros para a infraestrutura de mobilidade. No Brasil, os investimentos em mobilidade urbana equivalem a apenas 0,1% do PIB, patamar significativamente inferior à média internacional (1,3%) e à União Europeia (2,5%). Além disso, a alocação de recursos públicos para o setor de transportes (1,8%) fica bem distante de áreas estratégicas como Educação (5,7%) e Saúde (5,0%).
No campo do financiamento, o setor defende a estruturação do programa “Transporte para Todos”, fundamentado em três pilares para custeio do sistema:Vale-Transporte do Trabalhador (VTT): estimativa de 45% a 55% do custeio;
Gratuidades Setoriais: estimativa de 25% a 35% do custeio; vale-transporte social (VTS): estimativa de 15% a 25% do custeio.
O objetivo do modelo é reduzir a dependência da tarifa paga pelo passageiro comum, garantindo a sustentabilidade financeira do serviço e permitindo que o transporte coletivo recupere a competitividade e a atratividade perdidas nas últimas décadas.
